A atuação do controle interno no município e a aplicação da teoria das vidraças quebradas

8 mar
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Qualquer análise e organização de um sistema de controle interno deve considerar como razão de sua existência o fato de que o controle é feito por pessoas. São as pessoas a razão de existir de um sistema de controle interno. São as pessoas que erram, voluntária ou involuntariamente. São, pois, seres essencialmente emocionais e como tal tendem a repetir certos comportamentos.

É por isso que as questões que consideram o comportamento humano e de convívio social devem ser consideradas na organização de um sistema de controle interno.

Uma das teorias que se aplica à organização dos controles internos nos municípios e que considera a análise do comportamento humano é a “teoria das vidraças quebradas”.

Essa teoria foi utilizada como modelo nos Estados Unidos para o combate à criminalidade. A teoria foi resultado de uma pesquisa na escola de Chicago, levada a efeito por James Wilson e George Kelling.

A pesquisa utilizou como experimento a colocação de dois carros idênticos abandonados em ruas diferentes, um em uma área nobre, com conceito de ser um local seguro, e o outro em área de condição social inferior, onde a ideia de segurança era inexistente.

O carro colocado na área menos nobre foi totalmente destruído em instantes; já o outro carro, intencionalmente colocado em zona “segura”, não sofreu vandalismo. Essa ideia inicial mostra a importância da “sensação” de segurança na área mais nobre.

Todavia, para prosseguimento da pesquisa, mesmo na área mais nobre, os pesquisadores quebraram um dos vidros do carro. Na sequência, todo o carro foi depredado.

A experiência não objetivava estabelecer a relação comportamental em relação ao aspecto econômico das regiões geográficas em que os carros foram observados, mas, o comportamento humano.

Um vidro quebrado em um carro abandonado dialoga com a ideia de despreocupação e sensação de insegurança. Ou seja, as “leis de boa convivência” ou “sensação de segurança” não existem mais para o carro, o que faz com que ocorram ataques sucessivos até o descontrole absoluto e a depredação total, em decorrência da repetição do comportamento.

Qualquer um de nós pode testar esta teoria. Basta observarmos prédios abandonados após terem a primeira pedra atirada contra suas vidraças e veremos que, em pouco tempo, todo o prédio estará depredado. Pessoas tendem a repetir comportamento de outras pessoas.

Experimente andar na rua onde, na cidade, há a cultura de observar as faixas de segurança. Mesmo quem não é da cidade tenderá a respeitar a faixa. Outro exemplo é andar em uma cidade limpa, com lixeiras dispostas e à disposição. Ali a tendência é seguir o padrão estabelecido, mesmo que a pessoa não esteja acostumada, pois tende a repetir o comportamento e a cultura estabelecida.

Isso significa que “uma janela” não reparada a tempo, a tendência é o descontrole total da situação com o agravamento da situação inicial sucessivamente.

O primeiro teste da teoria das “vidraças quebradas” ocorreu na década de 80 no metrô de Nova York, local mais perigoso da cidade à época. Foram efetuadas ações de correções a transgressões menores como lixo jogado no chão, alcoolismo, evasões ao pagamento da passagem, pequenos roubos e desordens de menor potencial agressivo. Os resultados positivos comprovaram que a vigilância e o cuidado, mesmo nas pequenas falhas, são indutores para que o comportamento seja imitado.

Em 1994, Rudolph Giuliani, prefeito de Nova York, com base na Teoria, deu início a um programa de “comunidades limpas e ordenadas”, não sendo tolerante a transgressões às normas de convivência urbana. O resultado foi uma enorme redução de todos os índices de criminalidade.

Tratando-se de comportamento humano o raciocínio vale também para o controle interno. Por isso, procedimentos como a auditoria, in loco, utilizando-se do elemento “surpresa”, ou seja, causando a sensação de “vigilância” e “preocupação” é uma ação necessária que nenhum sistema informatizado poderá substituir.

Criar procedimentos de controle, regras e procedimentos, divulga-los e estabelecer treinamentos para prevenir e corrigir mesmo as pequenas falhas demonstra e divulga a preocupação com o sistema de controle, e evitará a sequência ou alargamento da quantidade de erros.

Organizar arquivos, manter local limpo, iluminado, organizado, pessoas vestidas adequadamente, com regras de convivência social criará um “ambiente” de respeito que será muito importante para o sistema de controle interno.

Em resumo, se você em sua atuação no controle interno não consegue fazer grandes ações não se preocupe, comece com as pequenas melhorias e vigilância constante. Comece consertando a primeira vidraça quebrada e não terá o prédio todo destruído.

Paulo César Flores

Sócio Diretor do IGAM

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