Eu só trabalho aqui…

28 out
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Há um tempo atrás me dirigi a uma concessionária de veículos para realizar a revisão do carro e, chegando ao local, ainda cedo da manhã, o expediente não havia iniciado. Observei um vigia ao lado do portão principal e perguntei-lhe sobre o horário do expediente, ao que ouvi a seguinte resposta “não sei, eu só trabalho aqui”. Sem saber o que comentar, agradeci.

Em outra ocasião, um administrador público me relatou uma situação em que um servidor ao ser questionado onde trabalhava este teria respondido que “na parte da manhã trabalhava na empresa e no turno da tarde estava na repartição”.

Tanto o primeiro relato, em uma empresa privada, como o segundo, em um setor público, têm como pano de fundo o sentimento do empregado e do servidor quanto ao seu trabalho, qual seja, a ausência de vinculação afetiva ao que fazia, ou, seu comprometimento.

As pessoas que trabalham sem comprometimento transformam-se em trabalhadores zumbis, pois, chegam apenas com o seu corpo no trabalho. Estas pessoas, desalmadas profissionalmente, naturalmente demonstram amargura, tristeza, irritação, depressão e, assim, infelicidade.

mudarVocê gostaria de trabalhar ao lado de pessoas que só reclamam? Que culpam os superiores, colegas, a empresa, o setor público em que atuam, os governos, e até os próprios pais, por sua infelicidade e fracassos? Acredito que não. E saiba, o pior de tudo é que as outras pessoas também não gostariam.

Os zumbis são criaturas que se proliferam nas organizações. São pessoas normais, mas que permitem que faleça, em suas almas, o amor pelo que fazem. Realizam trabalhos aos quais não se identificam ou nunca se identificaram, e se acomodam em zonas de conforto e de infelicidade pelo medo da mudança, limitando-se a culpar fatores externos pelos seus problemas, e, assim, morrem mesmo estando vivos.

Os zumbis podem ser reconhecidos, além de sua apatia natural, pelo seu estado de saúde e seus comportamentos. Geralmente são pessoas que adoecem com frequência, pois são estressados e seus corpos somatizam as contrariedades de seu dia-a-dia. Seus comportamentos também são facilmente identificáveis, pois passam o dia inteiro olhando no relógio e, a um minuto para encerrar o expediente, formam fila no ponto para ir embora. Também são criaturas que sabem sobre todos os feriados do ano, pontos facultativos e “pontes” em feriadões.
Entretanto, tem uma espécie de zumbi que, ainda que seja comum na iniciativa privada e pública, normalmente é mais frequente no setor público, é o zumbi sonhador. Ele sonha que a felicidade chegará junto com a sua aposentadoria e, tal como um presidiário, faz um “x” no calendário cada dia a menos para a data tão esperada, mesmo sabendo que o seu corpo já estará prejudicado pelas doenças que lhe assolarão a vida toda enquanto espera a realização deste sonho. Observe a conversa entre dois zumbis públicos. Inevitavelmente, um perguntará ao outro sobre quanto tempo falta para a sua aposentadoria, sendo que a resposta estará na ponta da língua e, com sorriso nos lábios (coisa rara num zumbi) ele responderá: tantos anos, tantos meses, dias e horas!

Pessoas que amam o que fazem não trabalham pela remuneração ou pela aposentadoria, mas pela realização. Pergunte a um profissional realmente apaixonado pelo que faz o que o motiva a trabalhar. Pergunte a um médico excelente em sua atividade e ele dirá que não realiza consultas, mas cuida de pessoas; pergunte a um contador realizado e ele dirá que contribui para o sucesso das organizações; pergunte a um sacerdote o que ele faz e ele dirá que salva as almas.

Pesquisas revelam que as pessoas mais realizadas são as pessoas que identificaram a sua vocação. Por isso, não acredito na expressão “se não faz o que ama, ame o que faz”. Trata-se apenas de uma forma de mentir para si mesmo e passar o resto da vida tentando amar o que não é natural para você. Não se ama alguém ou uma atividade por querer amar, pois o emocional não está sob nosso controle, lembre-se, ele é irracional.
Logo, se você se identificou com algumas das características dos zumbis, a notícia ruim é que você pode ser um deles. A notícia boa é que, se você está lendo este texto, ainda está vivo e, logo, ainda pode ser feliz identificando qual a sua vocação. Assim, não terá mais que se preocupar com horários, remuneração ou aposentadoria, tampouco criticar o governo, família, empresa ou órgão público em que trabalha. E, quando este dia chegar e alguém perguntar onde você trabalha, o que irá responder?
Texto elaborado por:
Paulo César Flores, contador, sócio-diretor do Igam, MBA em controladoria, especialista em contabilidade, auditoria e finanças governamentais.

One thought on “Eu só trabalho aqui…

  1. É notória a existência dos “zumbis” nas administrações públicas, em boa parte pela apatia dos próprios servidores, em outras, pela falta de investimento em qualificação, pois, não raras as situações de servidores que passam décadas executando a mesma tarefa, da mesma forma e obtendo os mesmos resultados, sem chance de conhecer algo novo.
    Investir na capacitação e atualização do servidor é investir na qualidade do serviço público, que também reverte em qualificação da própria gestão.

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